Vivemos numa sociedade que pratica inúmeros actos que não aceitamos, mas não queremos “ver”, não queremos acordar para uma realidade que a nós diz respeito. Vivemos na base de falsos valores, que se exprimem em palavras, mas não em actos. Somos hipócritas e ”sedentários” ao nosso aconchegado lugar no sofá e na “cadeia alimentar” social. Cadeia alimentar, porque diariamente, atacamo-nos uns aos outros quer verbal, quer fisicamente, para que nos olhem com mais respeito devido ao novo cargo no emprego, aos novos amigos importantes ou mesmo ao novo bem que possuímos. Parece que nos comemos vivos uns aos outros como uma tribo canibal, desesperadamente em busca de alimento, sendo que os mais poderosos conseguem sempre escapar utilizando os seus conhecimentos, as suas formas para o conseguirem. Mas todos nós ocupamos o nosso espaço neste”Mundo Canibal”, por muito correctos que pensemos ser. Todos falamos em ser humildes, sinceros, ajudar os outros, mas todos cometemos os nossos erros, todos nós falseamos os nossos valores, os nossos ideais, nem que seja pelo simples facto de não lutarmos verdadeiramente pelo que acreditamos, e fechamos os olhos aos nossos iguais em África, Ásia, e mesmo na casa ao lado. Ora porque pensamos que sozinhos não matamos a fome em África, ora porque pensamos que é melhor não nos intrometermos nas discussões dos vizinhos porque “entre marido e mulher, não se mete a colher”. Vamos vivendo assim a nossa vida nisto que ainda chamamos de sociedade, ou comunidade enquanto cada vez mais nos afastamos fisicamente uns dos outros, mas não haverá problema, porque “errar é humano”, certo?
Enquanto pensamos que estamos a subir na vida, ou a agir como tem que ser, só nos estamos a enganar a nós próprios, ainda vivemos em comunidade, a partir do momento que prejudicamos a sociedade, estamos a prejudicar-nos a nós consequentemente. Estes actos que praticamos e que prejudicam a sociedade chamamos-lhes violência social. Há diversos tipos de violência social, mas afectam quer os mais novos nas escolas como os adultos nos empregos, ou os idosos nos lares, jardins, cafés ou em suas casas.
É algo que vai crescendo connosco, e que nunca chegamos a “domesticar”. Isto porque somos seres humanos fracos, que crescemos sempre baseando-nos em alguém, com um exemplo na mente a seguir, como não vemos ninguém a agir sem esta violência social, nós também não a “educamos”, não temos nada em que nos basear senão simples e falsas palavras.
Na actualidade podemos ver como crescem as crianças, sem a companhia dos pais, passam os dias em frente à televisão, em que os programas que lhes chamam mais a atenção são os que contêm violência, como o Dragon Ball que fascinou milhões de crianças por todo o mundo, pela razão que o mal dos outros nos faz sentir bem, mesmo que este acto seja inconsciente. Mas estes desenhos animados não são os únicos que contêm violência. Uma simples novela tem sempre presente episódios com discussões, desenhos animados como os Loney Toones, apresentam episódios de violência não tão explícita, exemplo disto é o caçador atrás do coelho (o Buggs Bunny), ou mesmo o Tom and Jerry, que todos os episódios se baseiam nas novas formas que utilizam para fazerem mal um ao outro. A verdade é que são desenhos animados, e muitos nem apresentam humanos, mas as crianças não vêm o Tom and Jerry como um simples gato atrás de um rato. São aqueles actos, que pouco explícitos acabam por formar um pouco da sua personalidade, já que os pais, para lhes poderem garantir uma vida em condições, não podem estar presentes durante todo o dia.
Para além da “caixa mágica” como era chamada a televisão nos anos 50, a outra diversão para os mais jovens são os videojogos repletos de violência, desde matar o inimigo a bater violentamente no mesmo. Na maioria dos videojogos, o objectivo é derrotar o inimigo, seja no futebol, seja num jogo de espiões, guerreiros, etc. e desta forma vamos definindo os “bons” e os “maus”, vamos começar a criar divisões e patamares que mais tarde se aplicarão a nível social, e assim, nunca será possível ver todos os que nos rodeiam como iguais. Um motivo para começarmos com a violência que nos foi mostrada nos jogos, apesar de que a praticamos de forma diferente, não tão concreta como nos jogos (na maioria das vezes) porque o ser humano não gosta da diferença, não tem capacidade para a aceitar, mesmo que seja inconscientemente e sem intencionalidade, afastamos nos ou tratamos de outra forma aqueles que vemos como diferentes.
Também é verdade que alguns jogos e programas televisivos nos transmitem alguns valores importantes como a união, o respeito, e alguns actos que não devemos praticar, mas como já foi referido, divide-nos e isso é possível observar quando as crianças brincam com os seus brinquedos no quarto, em que existe o grupo dos “bons” que quer salvar o Planeta, e o grupo dos “maus” que o quer destruir, mas muito raramente se vêem crianças a brincar com cinco brinquedos, em que os cinco são iguais e lutam pela sua igualdade e melhores condições, em que o único mal seja os simples obstáculos que vão aparecendo naturalmente ao longo da vida, tem que haver sempre os “maus” que querem destruir tudo os que os “bons” construíram, não temos a base essencial da Democracia que devia reger as nossas vidas – a igualdade entre todos os seres humanos, factor essencial que condiciona o tipo de vida que levamos e a pessoa que somos.
Consequente à vida que as crianças levam em casa, está a sua vida na escola. Na escola as crianças são o espelho daquilo que são em casa. Os mesmos valores, a mesma educação. Os mais novos iludidos com o que vêem na televisão e nos jogos, idolatram as personagens que na grande maioria das vezes são fictícias. Brincam aos desenhos animados e jogos favoritos, sonhando um dia ser como um deles, um guerreio do espaço com poderes sobrenaturais, não percebem ainda, que muito melhor e valioso que isso, é ser um verdadeiro ser humano digno e capaz de se orgulhar de quem é, sem ter que esconder nada, praticando os valores e ideais correctos, os seus ideais.
Nessas brincadeiras existem as tais divisões de que falava. Os que são considerados os mais populares, e os que todos gostam, já conseguiram conquistar a confiança dos seus companheiros, sendo assim mais fácil conseguir ser um dos bons, e esse vai escolhendo os outros, e os que gosta menos, vão ficando para o fim, sendo assim os maus que são obrigados a perder. Começa assim a tal cadeia alimentar referida inicialmente. Todos se vão querer aproximar do tal que é sempre o melhor, o tal mais popular, vendo os outros acima como inimigos e faz de tudo para os derrotar e subir mais um degrau até saciar a vontade sem fim de estar no topo da cadeia e sermos o centro das atenções. Muito provavelmente estes actos são inconscientes, porque continuamos a confiar nos que estão supostamente “acima” de nós, e a brincar com eles, mas é a tal base que aprendemos em pequenos, e por essa razão de sermos demasiado novos, não conseguimos filtrar a informação que nos é trespassada através destes entretenimentos.
Assim começa a violência social na sua essência. Uma criança tão inocente, a tentar “passar por cima” de outra. E esta violência, não se explicita apenas em actos de violência física, mas todo o tipo de actos que intencionem prejudicar o outro. Desde inventar algo sobre ele para que prejudique a sua imagem, rebaixá-lo, gozando-o de diferentes formas pelo simples facto de que queremos ser mais que o outro, ou apenas porque ele é diferente, e não conseguimos aceitá-lo assim. Certamente sabemos de histórias, ou mesmo por experiencia própria, que uma pessoa que se vista de forma diferente é gozada e rebaixada diante os outros por essa razão, ou apenas por ser uma pessoa de outra raça (africano, indiano etc.). Vários resultados de estudos, demonstram que, pessoas, mesmo que se assumam como não racistas, deixadas num sítio durante algum tempo, com outras pessoas que não conhecem, acabam por se associar às pessoas mais parecidas a si, demonstrando então o tal facto do ser humano ser incapaz inconscientemente de aceitar a diferença.
Parecendo que estes actos estão muito mais relacionados com o sexo masculino, devido ao tipo de desenhos animados e videojogos referidos, não se pode confirmar isso. Sabemos também que as mais novas têm também essa ânsia de serem mais populares, de “escalarem a cadeia alimentar”. Gostam de ser a mais bonita, a mais bem vestida e a que todos os rapazes querem. E isto deve-se essencialmente também à sua infância influenciada pelas bonecas e príncipes encantados que criam os valores das suas mentes, porque tal como já foi referido como causa, o ser humano define sempre um ídolo a seguir.
É desde novos que as pessoas se formam, que criam as suas bases para seguirem o resto da vida, e a infância de cada um, condiciona sempre o futuro. E seremos quem fomos formados no passado, podemos melhorar, mas os nossos comportamentos terão sempre algumas influências de quem fomos anteriormente. Somos a pessoa de hoje, mas sempre com um pouco de ontem. E a nossa formação é nítida em variadas situações. A violência social continuará dentro de nós, e é bastante evidente no futebol, por exemplo. Este desporto, eleito como o desporto rei entre os europeus, transforma adultos e crianças, em máquinas ferozes e irreconhecíveis. Isto porque, uma vez mais, opõe os “bons” (a equipa favorita) aos “maus” (a equipa adversária). Muitos adeptos do futebol excedem os seus limites durante um jogo, pondo em prática os seus verdadeiros valores e não aqueles que considera ter ou assume ter. Durante os noventa minutos do jogo, ofendem-se árbitros, jogadores e apoiantes das outras equipas. São vitimizadas pessoas pela simples razão de serem o adversário. Comentários racistas, xenofobismos, ou até sem razão (não que as anteriores referidas sejam razões válidas) tudo isto com a intenção de prejudicar os outros só para que alcancemos a nossa felicidade. E depois do jogo, a violência continua. Mas aí, não apenas verbal. Adeptos entram em confronto físico porque a sua equipa foi derrotada.
Mas há ainda muitas outras acções que se evidencia a violência social. Na Política, em que extrema-esquerda e extrema-direita mantêm uma aceso confronto de palavras e de agressões físicas, mas também nas saídas nocturnas, no emprego, etc.
Estes actos afectam a nossa sociedade e como já disse, consequentemente afectam cada um de nós. Tornam-nos menos pessoas, e tornam os outros menos alegres. É uma ânsia pelo topo desnecessária, se todos colaborarmos. Porque razão havemos de discriminar uma pessoa? E através deste sentimento de rejeição à diferença, o que não perdeu o mundo com guerras, escravatura etc.? E quanto não continua a perder devido a esse racismo, e incapacidade de aceitar a diferença? Mortes por diferença racial, excluídos porque falam outra língua, mas são estes que mais excluem, que criticam que não os imigrantes nada fazem, e que são eles que roubam. Quando não lhes damos outra hipótese, talvez sejam.
Dentro da violência social, podemos distinguir essencialmente dois tipos de violência. A física, e a verbal. Mas sem qualquer dúvida, a verbal tem consequências bastante mais graves que a física. Uma pessoa que seja agredida fisicamente, pode ser atendida num hospital, e em pouco tempo estará de volta à normalidade (na grande parte dos casos) enquanto que uma agressão verbal pode deixar mazelas para toda a vida, uma pessoa pode perder a confiança em si, começar a ter depressões e não se sentir bem consigo próprio, o que pode causa também lesões físicas. As lesões psicológicas causadas pela violência social, podem ter como consequência perda pelo interesse de viver. E tudo isto para que um se sinta melhor. Valerá a pena? Não, logicamente, qualquer pessoa bem formada responderia assim. Mas a questão essencial é, será que agiria assim? A resposta a esta pergunta pode ser variadíssima porque ter-se-ia que analisar a pessoa, o seu estado de espírito, etc. mas, geralmente, se houvesse algo que fizesse a pessoa feliz mesmo tendo que prejudicar outros, agiria conforme a sua felicidade.
A violência social, impossibilita-nos de nos desenvolvermos, de trabalharmos em grupo, capazes de fazer dos 5 continentes, um só, baseado na igualdade e na felicidade.
Através desta linha de pensamento, podemos perceber que a violência social está empregue nas nossas vidas de forma muito mais activa do que julgamos, porque nem a nós próprios nos conhecemos, vivemos à base de falsas ideologias e valores que nos levam pelos caminhos que teoricamente rejeitamos sem hesitar. E se queremos mudar isto, não só na nossa geração, como nas seguintes, temos que investir numa melhor e diferente educação dos mais novos, porque não será certamente a transmitir falsas ideologias que não possuem nenhuma ligação com a realidade em que vivemos, que não passam de meras utopias pela forma teórica que são transmitidas, que o vamos conseguir. E se conseguimos dar sentido a frases feitas como “errar é humano” também deveríamos dar sentido a frases feitas como “as crianças de hoje são o futuro do nosso planeta” e “deixa o mundo um pouco melhor do que o encontraste”